Será perfumaria?

A situação é simples. Você tem pontos nalguma das dezenas de programas de fidelidade existentes. Tem o da padaria, o da perfumaria, o do hospital, do pet shop. Até borracharia já tem programa de fidelidade.

É claro que você acompanha com atenção aqueles 2 ou 3 de companhia aérea, porque, afinal de contas, são suas férias que estão em jogo, graças ao inferno que sua vida profissional te impõe nos aeroportos e no aperto dos aviões.

Daí você descobre que tinha não sei quantos pontos no programa da perfumaria. Algo que dava para até ganhar uma colônia daquela que você usa de vez em quando. Só que os pontos venceram.

O que é o óbvio: escreve para a perfumaria e reclama, custava eles mandarem um e-mail, desses assim tipo mensagem automática, avisando antes que os pontos iam vencer?

Resposta dos caras: gostamos dos clientes, amamos o planeta, damos dinheiro para a caridade e blá-blá-blá e que os pontos podem ser consultados sempre pelo site ou pelo telefone.

Ora, direis? Ligar para a perfumaria para saber quantos pontos você tem? Você sequer lembra que ela existe porque tem tanta coisa mais importante para fazer e eles acham que resolve ficarem lá do outro lado da linha esperando você ligar?

Com tanto MBA, marketing e CRMs as empresas ainda não aprenderam o simples: atender bem é simplesmente colocar-se no lugar do cliente.

Fazer bom RH é mais ou menos a mesma coisa: muitas vezes a melhor solução para a gestão é simplesmente prestar atenção ao que as pessoas dão valor e precisam para oferecer o seu melhor desempenho.

Quanta coisa se pode aprender num feriado em Cunha (SP)

03 de junho, 10:00, Corpus Christi em Cunha, São Paulo, ponto de parada das tropas que ligavam Paraty à região das minas, no Brasil colônia, virou cidade e persiste até hoje.

Hoje divide uma pacata tradição agrícola e leiteira com a nascente indústria do turismo.

O que move o turismo, em parte, é a natureza da região, próxima a serras, cachoeiras e um trecho relevante de uma reserva plena de Serra do Mar.

Em outra parte é o fato de reunir ali uma rara concentração de ceramistas que praticam técnicas milenares. Basta dizer que há na cidade 5 fornos noborigama, algo que vem do passado medieval japonês e que já não se encontra mais por lá, a sua origem, pela simples razão de não terem disponível a madeira necessária para movimentá-los.

Há também alguns bons restaurantes e pousadas memoráveis tanto pelo preço ainda convidativo como pela simpatia dos donos, atuantes no negócio.

Mas o que realmente chama atenção não é nada disso: é o povo de Cunha. Voltando ao começo, nesse dia e horário pudemos ver como as famílias, as irmandades, escolas e outras entidades reuniram jovens, velhos e crianças para se ajoelhar em plena rua e fazer mais uma vez reviver a sua fé na forma dos tapetes de rua.

Serragem, cal, pós de café, ramos e flores. Vale tudo para dar uma mensagem e honrar o divino. A comunidade toma conta das ruas e expressa o que tem de melhor. Não tem guru nem CEO premiado, ISO 14000, black belt ou qualquer outra metodologia que consiga fazer isso de forma tão consistente e coerente: as pessoas passam o ano todo planejando o seu trecho do tapete, reunindo materiais, fazendo esboços e organizando a tarefa.

Tudo isso para servir de enfeite fugaz e pavimento onde desfilará a comunidade, toda a comunidade, que adere ao evento.

Acabou? Não, não acabou. A procissão já passou, o cheiro do incenso se dissipa no ar, o povo anda para lá e para cá simplesmente ‘footeando’ na praça da igreja quando vemos uma mãe e uma criança, um garoto, aí pelos seus 4 ou 5 anos.

A moça e seu filho. Bem arrumados e simples como é a gente de uma cidade como Cunha: pobre, mas limpa a toda prova, como é a gente que zela pela sua condição humana.

“Olha lá o papai!” Diz a mãe para um garoto que grita e acena. O papai, Marco Antonio da Silva organiza e participa do bloco da limpeza, que imediatamente toma conta da rua depois que passa a procissão.

Lá vai ele incansável, parece que bailando: varre aqui, faz montes com enxada ali, leva enormes latões com as sobras do tapete sagrado para despejar no caminhão da limpeza pública.

Marco Antonio tem um mês de serviço. Foi concursado e aprovado para integrar o bloco da limpeza pública de Cunha e o feriado de Corpus Christi é o seu debut à luz do dia, já que, normalmente, trabalha de madrugada.

Luciana é sua mulher e tem orgulho de levar o filho, Alisson, para ver o pai trabalhar. O pai tem orgulho de mostrar ao filho o seu trabalho. Marco Antonio é varredor de rua em Cunha. Tem orgulho do seu serviço, conquistado pelos seus méritos.

A comunidade de Cunha, Marco Antonio e sua família e os muitos outros que ainda andam por aí talvez tenham algo a nos ensinar.

Essas pessoas vivem fazendo essas coisas anacrônicas como reverenciar um evento mais sagrado que um show de rock. Têm compreensão do seu papel e orgulho do que fazem, absolutamente alheios ao que um careca engraçado ou um apresentador famoso twitaram na última hora.

São obsoletos ou uma esperança?

Dialogando com Mauro Segura e Sarah Newton

Caríssimos,


 


Ricas reflexões lançaram sobre o comportamento da chamada geração “y”. Muito se diz deles e chegamos a acreditar que há algum deslumbramento do mundo corporativo em relação ao tema. Indo um pouco além, imaginamos que há até RHs se valorizando perante seus patrões, perdão, acionistas e líderes, divulgando suas autoatribuídas habilidades em lidar com os segredos e exigências dessa galerinha.


Mas, que tal dar um passo atrás e ampliar a nossa perspectiva?


Essa identificada pouca resiliência que notam agora na geração Y parecer ser uma tendência de origem bem mais antiga e que se torna presente nas sociedades modernas (pelo menos nas ocidentais e ocidentalizadas) desde provavelmente a Renascença ou, pelo menos, o Iluminismo.


Junto com a secularização do mundo, já faz um bom tempo que a dor e o sofrimento perderam o seu valor como fonte e meio de aprendizagem sobre as coisas da vida (e do além).


O antes celebrado herói da nossa infância, aquele que se esfalfava para salvar a mocinha passou a ser visto como otário ou, no máximo, um patético Quixote que não sabe pagar alguém para fazer o serviço.


Nosso mundo há séculos vem desqualificando o caminho do sacrifício como elevação e corre loucamente para combater a dor, a feiúra e a tristeza.


Havia uma enorme distância entre o desejo e a realização.


Mas parece que agora estamos conseguindo: qualquer um compra humor na farmácia, 10 anos a menos com botox e sexo novo com Viagra e silicone.


Isso com certeza reflete no mundo do trabalho e nas relações corporativas.


Faz sentido alguém encarar trabalho duro e chefes pentelhos ao longo de muitos anos para garantir um relógio de ouro e a aposentadoria? O sofrimento organizacional é fonte de aprendizagem ou burrice de quem o aceita?


Logo vão aparecer consultores iluminados propondo pílulas matinais de conhecimento e processos acelerados de amadurecimento em workshops de 6 horas.


Ou já tem?


Ler mais da fonte: http://aquintaonda.blogspot.com/

HOJE É DIA?!

Hoje é um dia especial. É dia de não beber ontem, para dar menos cheiro. É dia de ter passado a noite em claro, ansioso, virando na cama e olhando para teto. Dia de ter medo que as baratas tenham aparecido e sido vistas à noite. É um dia especial, de preparação, espera e medo.


Hoje é dia de tomar banho demorado porque começou cedo, quase antes de clarear. É dia de fazer a barba com carinho e cuidado, como se uma moça viesse para passar a mão e avaliar a qualidade do serviço. É dia de se preparar como se alguém viesse para se servir, e ser servida.


Hoje é dia de passar perfume para disfarçar os cheiros da idade e de tanto tempo. Cheiros de vício e de uso prolongado. Hoje é dia de sentir-se como queremos ser vistos por quem amamos.


Hoje é dia de vestir roupa limpa. Roupa passada. Calça escura e camisa folgada para disfarçar a barriga. É dia de parecer um pouco mais jovial que de costume, mas não demais, para não parecer irresponsável.


Hoje é um dia em que não se sabe como se deve portar e vestir. Hoje é o dia do obscuro e desconhecido inesperado. Hoje é um dia que pode não acontecer, como não tem acontecido há tanto tempo.


Hoje é o dia de visita da minha filha.

CELEBRIDADE TAMBÉM TEM SEU DIA DE MEDÍOCRE.

Estava na 2ª fileira num voo de Belo Horizonte a São Paulo. Era o TAM das 20h35, que geralmente enche de gente cansada do dia de trabalho, muitas vezes tendo feito um ‘bate e volta’ daqueles que ninguém merece.

Na primeira fila senta-se uma celebridade midiática. Jornalista, formador de opinião e autoproclamado exemplo de correção para apontar as mazelas alheias.

Trazia – como todo mundo – uma daquelas mochilas onde cabe uma mudança. Não achou lugar no bagageiro acima da poltrona porque os espaços da frente são usados pela bagagem dos tripulantes mais os foninhos, desfibrilador etc.

Não teve dúvida: largou no chão, em frente à poltrona e ficou com cara de birrinha. Veio a comissária educadamente pedir que procurasse um lugar para por porque ali era inseguro e pá e tal.

A celebridade respondeu que o problema era dela, porque “vocês usaram o espaço” e virou a cara. A comissária sem jeito com tanta grosseria, recolheu o trem e foi sorrir para quem merecia.

Veio outra e a mesma história. Como havia alguns lugares vazios (aqueles do meio que ninguém quer), outros passageiros se prontificaram a encaixar o bagulho do célebre embaixo de outra poltrona, o que foi feito com boa dose de força bruta, já que o volume era grande e tinha que entrar lá de qualquer jeito.

O bonitinho nem se levantou. Mal agradeceu.

Pergunta que vale 2 manuais de ética e um de boa educação: que direito tem um ser, célebre ou não, de maltratar outro ser que apenas está fazendo o seu trabalho? Por que não escrever para o presidente da companhia, para o Ibama ou para o Papa?

Não, o célebre preferiu ter o seu momento de medíocre banalidade.

De qualquer forma, Deus é justo: quando o vôo pousou teve que esperar todo mundo passar para ir resgatar suas trolhas e, com certeza, aquela comissária não deve ter ido ajudar a desencalhar o volume de onde o colocaram...