RH e o curioso caso de Benjamin Button

Uma jovem nos consultou sobre que caminhos seguir para construir uma carreira consistente em RH. Sua questão é simples: “Como faço para me tornar rapidamente “generalista e estratégica” em RH?

E respondemos:

“Generalista é a (des)qualificação que vem minando a capacitação e a atuação de bons profissionais de RH nos últimos anos, ao lado do já não tão valorizado “estratégico” (em processo de esvaziamento, por desgaste e simples falta de fatos novos).

É comum ver-se ofertas de vagas, currículos e apresentações com esse adjetivo insustentável. Afinal, o que é ser um “generalista”?

Curiosamente, essa tendência segue a (des)qualificação na carreira médica. Já há algumas décadas, nenhum médico poderia ser apenas clínico geral. Para ter sucesso, precisava se especializar nalguma parte do corpo humano, quanto mais melhor.

A onda começou a mudar faz pouco tempo, depois que o holismo ganhou destaque: pessoas mais conscientes querem se consultar com quem as enxergue integralmente e não só como um pé sem cabeça, ou uma cabeça sem pés.

A questão é que se torna um bom clínico geral é aquele formado nalguma especialidade e que, com o tempo, muita experiência e anos de maturação depois, conquista o domínio do todo do seu cliente, incluindo o lado psíquico e afetivo.

Em RH, não. Ninguém mais se dedica a ser um especialista. Seja em administração e processos, remuneração ou treinamento. Todos querem logo ser generalistas, business partner ou gerentes de qualquer coisa, como se fosse lógico e natural ser primeiro árvore e depois arbusto e broto (lembra do filme do Benjamin Button?).

A pergunta que vale 10 pontos é a seguinte: se todo mundo é "estratégico" e “generalista”, quem está fazendo o serviço? Quem faz as coisas acontecerem?

Ser estratégico só faz sentido onde haja uma operação com gente trabalhando e sabendo o que está fazendo. "Generalista", por sua vez, é uma lenda urbana criada pelas 'contigo executivas' e os vendedores de MBAs que lhes servem de fonte.

Especialistas nos temas de RH, profissionais que entendem do que fazem e sabem o que estão falando, estão fazendo uma enorme falta nas empresas.

Existe sim um tipo de generalista: aqueles muito competentes em uma ou mais especialidades de RH que crescem na carreira e ampliam seu escopo de atuação.

Jovens talentos podem evoluir na carreira, seguindo algum atalho. Mas chegará o ponto em que faltará o estofo, inclusive para ser estratégico, lá na frente.

Sugerimos então à nossa interlocutora:

 “Defina o que mais te atrai em RH; o que você gosta e acredita em que possa ser muito boa. Eventualmente, considere também algumas coisas que vai precisar conhecer para ser mais competitiva. E ESPECIALIZE-SE! Aprofunde-se em algumas coisas e tenha a honestidade de confessar que não domina outras.

Ao mesmo tempo, seja flexível para adaptar-se e continuar sempre aprendendo.

Um bom generalista não é aquele que sabe pouco de cada coisa e nada sobre o todo, mas sim quem sabe o bastante sobre cada especialidade para perceber sistemicamente quais as conexões, impactos e implicações numa vertente resolvem os problemas e geram resultados no conjunto.”.

Coaching é bom?

Depois do personal trainer, do personal stylist, da lipo, do cachorro de raça diferente, do MBA em escola de 1ª. linha (preferencialmente no Exterior) e da assessoria de imprensa, parece que a bola da vez é ter um coach para chamar de seu.

A grande diferença entre esta e as outras conquistas do executivo bem sucedido, é que ser atendido por um coach não é algo que as pessoas costumem divulgar amplamente. Às vezes porque foi “a empresa (ou o RH) que mandou”; às vezes porque o cliente tem algum tipo de receio, como se buscar um coach fosse a confissão de portar algum tipo de falha ou deficiência. 

O personal trainer nos ajuda a cuidar do corpo e da saúde. O personal stylist orienta a maneira de vestir e comportar-se. Uma lipo nos reconcilia com o espelho. O MBA complementa a graduação, traz novos conceitos e permite a construção de um importante network. O assessor de imprensa cuida de nossa imagem pública, escreve ou revisa nossas falas, coloca nosso nome e realizações em evidência e nos apoia em situações de crise. Já o valor de um cachorro é indiscutível: faz companhia, nos acolhe com carinho em todos os momentos e não pede nada em troca.

Por que um coaching  pode valer tanto – ou mais – que os exemplos citados?

Porque um processo efetivo de coaching pode ser muito mais contributivo para a carreira e a vida de alguém que dispor de todas aquelas outras utilidades.

Aliás, muita gente bem sucedida nunca fez plástica, nem tem personal trainer, stylist, MBA, cachorrinho ou assessor de imprensa.

Discutindo as questões de interesse imediato do seu cliente, o que um bom coach faz são perguntas. A partir dessas perguntas, as pessoas conquistam um inestimável autoconhecimento sobre: seu potencial e limitações; seus sonhos; sua natureza pessoal, sentimentos, valores e ética.  Enfim, aprendem sobre o seu jeito de funcionar e o que as faz únicas e especiais.

Com esse conhecimento essas pessoas fazem, para elas, melhores planos e escolhas. Tomam decisões difíceis com menos desgaste, têm mais facilidade para assumir as perdas e usufruir de seus ganhos. E vão em frente, de desafio em desafio, com coragem, confiança e serenidade.

É claro que o coaching não é o único meio disponível para que alguém alcance um estágio superior de maturidade e melhoria contínua.

No entanto, um processo de coaching, conduzido por um profissional bem preparado – em cursos e pela vida – pode ser um ótimo começo.















 

O que ganha o jogo?

De uns tempos para cá surgiu uma gana da função de RH tornar-se “estratégica”. Nada contra. É legal poder sentir-se parte da turma lá de cima, estar “assim com os homens” e cantar de galo perante o financeiro, o marketing e a produção.

O que pega um pouco é o que não é dito. Ou seja, será que o valor da contribuição de uma área ou atividade só se define quando ela ganha o carimbo de “estratégico”. Se não tático, não conta? Não ganha a guerra?

Por outro lado, se todo mundo agora quer ser “estratégico”, quem cuidará de fazer o tático bem feito bem feito?

Seleção, por exemplo, sempre foi tático. Praticamente porta de entrada na carreira de RH, para quem não queria ou não sabia ser DP. O sonho era passar logo para treinamento ou avaliação de desempenho. Remuneração, esta sim uma área que sempre foi vista como “estratégica” não era para qualquer bico. Sabe como é, matemática demais para alguns estômagos delicados.

Como é que ficou agora? Treinamento anda meio em baixa desde que acabaram com a Lei 6297. Programa de 24 hs tem de ser rodado em 6 hs e programa com maior duração, só para “desenvolver” gente de alto escalão quando fica meio ociosa entre uma posição e outra.

Seleção sim é o estratégico da hora. Como falta gente para tudo, do servir cafezinho a presidir o empreendimento, os headhunters estão deliciosamente comprando SUVs e torcendo para essa onda durar. E vai: como educação e treinamento não são estratégicos – nunca foram o bastante – vai continuar faltando gente qualificada.

Remuneração vai bem, obrigado. Qualquer coisa em RH que passe mais perto do financeiro geralmente vai bem. Especialmente porque ainda tem gente que acredita que salário segura gente e que as pessoas trocam 6 por meia dúzia mais 10 reais.

O mais engraçado é que essas questão são tão estratégicas, mas tão estratégicas, que praticamente tudo foi terceirizado, junto com o call center e a segurança. Sabe como é, quem tem efetivo contato com o cliente não precisa ser da casa, melhor por um terceiro para atender São Paulo sentado lá em Rondônia e vai ficar bem mais barato.

Então, como é que fica? O que era estratégico, não é mais. O que é estratégico agora, gente, só se tornou por que nunca foi estratégico antes e, portanto, hoje apresenta-se um quadro de dolorosa escassez.

Mas, será que o valor estratégico de uma função decorre só da situação de escassez? Se, então, um dia, o mercado ofertar gente em quantidade e qualidade suficiente RH deixará de ser "estratégico"?

Que tal investir um pouco mais de tempo e inteligência para clarear qual a identidade da função de RH? Ficar fazendo continhas lineares para provar o ROI do investimento intangível, não vale. Provar a insustentável leveza do ser é produzir uma obra de arte, não encher uma planilha...

O verdadeiro apagão que assola o país.

Fala-se muito ultimamente em apagão de talentos. O mundo inteiro em crise, desemprego batendo recordes históricos na Europa, Japão e Estados Unidos e, por aqui, temos um tal de apagão de talentos.

Há um apagão, sim, mas não é de talentos. É de gente mesmo. Gente comum, simples, normal, do tipo que deveria apenas ser emocionalmente equilibrada e saber ler, escrever e contar direitinho. Engenheiro, bioquímico, farmacêutico, então, nem se fala.

Falta também clareza e inteligência nas previsões de jornal de domingo e nas ‘contigo’ executivas. Olhe qualquer publicação do tipo que você sabe qual é, de uns 5 ou 10 anos atrás. Aposto um baldinho de 2 litros de sorvete napolitano como diziam que as profissões do futuro eram algo como turismo, hotelaria, informática (assim genérico, sem fazer nenhuma distinção entre um digitador e um engenheiro de software), geriatria e coisa nessa linha. Aposto 2 baldinhos de sorvete à sua escolha como ninguém recomendava que os jovens estudassem engenharia, matemática e estatística ou física, justamente algumas das figurinhas carimbadas que vem sendo hunteadas a tapa. A propósito, as escolas de turismo e hotelaria estão fechando por inanição e as escolas de engenharia têm os índices de evasão mais altos do ensino superior. Motivo? A meninada não aguenta acompanhar as matérias básicas de cálculo, física, química e estatística.

O que dizem agora? Falam para estudar engenharia e para buscar as tais “carreiras do futuro”, ligadas a cuidados pessoais, sustentabilidade e outras novidades. Falta considerar que, daqui a 5 anos, quando as pessoas estiverem saindo das faculdades, o mercado poderá ter mudado.

O bairro em que moramos, o Campo Belo, em São Paulo, é um bom exemplo disso. Alguém lá atrás percebeu que as pessoas gostam de cachorros. Outros perceberam que as mulheres precisam de serviços de cabeleireiro, manicure e coisas quetais.

Moral da história: na mesma geografia, temos umas 6 padarias, mais de 30 petshops e uns 40 salões de beleza. Ah! E uns 3 salões de barbeiro que teimam em continuar trabalhando. E nenhuma livraria maior que bancas de jornais que também vendem auto-ajuda. Ou seja, todo mundo quer ser empreendedor, mas parece que há mais empreendedores que boas ideias...

Enfim, tem um filho em idade escolar? Quer a dica que pode garantir o futuro dessa criança?

Então assegure-se de que ela vá a uma escola que a ensine a ler, escrever e contar muito bem. De preferência em mais de um idioma, mas o português deve vir primeiro.

Depois a incentive a desenvolver atividades artísticas, esportivas e de relacionamento. Qualquer uma é boa, desde que não seja obrigatória e com meta.

E esteja sempre por perto, porque está cada vez mais difícil crescer num mundo em que tudo foi terceirizado, inclusive o amor verdadeiro.

A gente se vê daqui a uns 15 anos.

O poder do Um: Steve quem?

Desde a Renascença os séculos se debateram para definir sobre a preponderância dos poderes nas sociedades humanas: se entre as instituições, os coletivos, ou os líderes, individualmente considerados. Antes disso, nenhuma dúvida, só contava quem estivesse no topo da pirâmide, os poucos que, literalmente, ficaram para a memória e as lendas.

Reis e rainhas fizeram a história, enquanto os povos eram apenas isso: “povos”, uma multidão sem cara e sem casca além de partilhar uma língua, uma narrativa de fundação e território comuns.

O século XX nos trouxe o embate cruel e fatal entre essas tendências na forma de ideologias, sistemas políticos e burocracias constituídas, que geraram também grandes paixões políticas, guerras e revoluções.

A 1ª. Guerra detonou significativa parte das monarquias e impérios do ‘velho mundo’. O nacional-socialismo e o bolchevismo surgiram como as grandes forças ideológicas de contraposição ao cordão de variedades genericamente chamado de “democracia”, herdeiras lá do Iluminismo e da Revolução Francesa, falar nas anteriores criações políticas inglesas.

Nas empresas, o movimento é similar. O que vale mais: uma ‘cultura’ forte ou o carisma dos líderes de ocasião? Mesmo a cultura corporativa, muitos a consideram apenas uma materialização do carisma e da marca dos líderes fundadores, pouco influenciada pelas gerações organizacionais posteriores.

A morte de Steve Jobs parece reforçar o dilema: o que será da Apple, uma organização de mais de 10 mil funcionários, com engenheiros e marqueteiros entre os mais talentosos do mundo, sem o seu fundador e líder?

De fato, não sabemos. Nem temos como saber.

Sabemos, no entanto, que Steve Jobs era um ser diferenciado, o bastante para chegar onde chegou e deixar a marca que deixa agora.

Sabemos também, esfriados os ânimos, que ele não era o gênio do design ou da engenharia: os caras que realmente fizeram os milagrosos i-tudo que ele nos vendeu continuam vivos e produtivos.

Aliás, outra boa inquietação nesses tempos de elegia aos ‘geração letrinha’: os caras mais geniais e brilhantes da Apple são quarentões e cinquentões, e estão por lá há mais de 15 ou 20 anos! Não ficaram quicando de emprego em emprego, de promoção em promoção atrás de ôba-ôba e bônus semestrais... Ao contrário, ficaram suportando um cara que tinha um lado genial, mas outro nem um pouco gentil ou fácil de conviver, para dizer o mínimo.

Mas, voltando ao essencial: ocupando a posição de CEO, líder, ou como queiram chamar, Jobs articulou, concatenou, provocou, humilhou e dirigiu os esforços de milhares de pessoas durante muitos anos.

E foi brilhante o bastante para pegar a produção de toda essa gente e divulgar como sendo a sua obra! E mais: o mundo acreditou!

Difícil alguém que não ouviu falar de Alexandre ou Gengis Khan. Grandes conquistadores, não lograram formar impérios que sucedessem à sua existência. Os filhos ou os generais de então fizeram o trabalho de fragmentar e perder a grandeza da conquista original.

Outros, como império turco-otomano e as dinastias que se sucederam na velha China, duraram muito mais que a lembrança que temos dos nomes de seus fundadores.

Steve Jobs, como aqueles grandes conquistadores, já plantou seu nome da história do século como líder inconteste de uma organização de gente talentosa.

Se o império sobreviverá ao líder, é cedo para dizer.

Quem viver, verá. E talvez tenhamos aí, de novo, a oportunidade de aprender algo sobre como se funda e mobiliza uma organização que sobreviva, ou não, aos seus fundadores.