Fala-se muito ultimamente em apagão de talentos. O mundo inteiro em crise, desemprego batendo recordes históricos na Europa, Japão e Estados Unidos e, por aqui, temos um tal de apagão de talentos.
Há um apagão, sim, mas não é de talentos. É de gente mesmo. Gente comum, simples, normal, do tipo que deveria apenas ser emocionalmente equilibrada e saber ler, escrever e contar direitinho. Engenheiro, bioquímico, farmacêutico, então, nem se fala.
Falta também clareza e inteligência nas previsões de jornal de domingo e nas ‘contigo’ executivas. Olhe qualquer publicação do tipo que você sabe qual é, de uns 5 ou 10 anos atrás. Aposto um baldinho de 2 litros de sorvete napolitano como diziam que as profissões do futuro eram algo como turismo, hotelaria, informática (assim genérico, sem fazer nenhuma distinção entre um digitador e um engenheiro de software), geriatria e coisa nessa linha. Aposto 2 baldinhos de sorvete à sua escolha como ninguém recomendava que os jovens estudassem engenharia, matemática e estatística ou física, justamente algumas das figurinhas carimbadas que vem sendo hunteadas a tapa. A propósito, as escolas de turismo e hotelaria estão fechando por inanição e as escolas de engenharia têm os índices de evasão mais altos do ensino superior. Motivo? A meninada não aguenta acompanhar as matérias básicas de cálculo, física, química e estatística.
O que dizem agora? Falam para estudar engenharia e para buscar as tais “carreiras do futuro”, ligadas a cuidados pessoais, sustentabilidade e outras novidades. Falta considerar que, daqui a 5 anos, quando as pessoas estiverem saindo das faculdades, o mercado poderá ter mudado.
O bairro em que moramos, o Campo Belo, em São Paulo, é um bom exemplo disso. Alguém lá atrás percebeu que as pessoas gostam de cachorros. Outros perceberam que as mulheres precisam de serviços de cabeleireiro, manicure e coisas quetais.
Moral da história: na mesma geografia, temos umas 6 padarias, mais de 30 petshops e uns 40 salões de beleza. Ah! E uns 3 salões de barbeiro que teimam em continuar trabalhando. E nenhuma livraria maior que bancas de jornais que também vendem auto-ajuda. Ou seja, todo mundo quer ser empreendedor, mas parece que há mais empreendedores que boas ideias...
Enfim, tem um filho em idade escolar? Quer a dica que pode garantir o futuro dessa criança?
Então assegure-se de que ela vá a uma escola que a ensine a ler, escrever e contar muito bem. De preferência em mais de um idioma, mas o português deve vir primeiro.
Depois a incentive a desenvolver atividades artísticas, esportivas e de relacionamento. Qualquer uma é boa, desde que não seja obrigatória e com meta.
E esteja sempre por perto, porque está cada vez mais difícil crescer num mundo em que tudo foi terceirizado, inclusive o amor verdadeiro.
A gente se vê daqui a uns 15 anos.