O velho Consenso de Washington acabou". A frase-decreto – proferida pelo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, durante encontro de cúpula do G20, em Londres, para definir soluções de enfrentamento da atual crise mundial – é apenas um marco para aquilo que nós já sabíamos há algum tempo: a economia global não será mais a mesma após a atual turbulência.
As noções radicais do Consenso de Washington que pregam o Estado mínimo, a liberalização econômica e a desregulamentação dos mercados não têm mais espaço no cenário atual. O maior exemplo é o próprio encontro do G20, em que os mandatários das grandes economias mundiais, dos organismos multilaterais e dos países emergentes se reuniram e amarraram uma série de acordos que preveem um pacote de US$ 1,1 trilhão em recursos públicos para movimentar a economia global e contribuir para o fim da crise. Esta é uma fração dos US$ 5 trilhões que os governos nacionais já se comprometeram a injetar nas economias locais até 2010.
A enxurrada de recursos lançada em um mercado cambaleante – que não se sustentou ao abusar da própria liberdade ao gerar ativos tóxicos construídos sobre papéis sem lastro – mostra que o Estado volta para atuar como ente decisivo na solução de problemas. A partir de agora, a regulação de mercados deverá ser mais rígida, e as cobranças de transparência nas transações, mais exigentes.
Apesar de o Estado brasileiro estar solidamente estabelecido, além de as empresas nacionais, em sua grande maioria, manterem administrações responsáveis, a turbulência internacional acabou afetando nossa economia, em razão da restrição ao crédito, da sobrevalorização do dólar em relação ao real e da constrição do mercado mundial. Mesmo assim, as autoridades nacionais têm cumprido seus papéis e atuado para a reversão do cenário de desaceleração econômica.
O Brasil deixou também de ser um agente passivo no teatro político mundial e passou a ser ator de destaque nas decisões globais. Exemplo disso é que, como podemos lembrar em relação a outras crises de nosso passado recente, o país deixou de demandar ajuda financeira de organismos multilaterais, como o FMI, e está passando a ser um dos responsáveis por bancar o equilíbrio econômico internacional, a partir de aporte de recursos ao Fundo Monetário Internacional para ajudar países emergentes.
Às empresas caberá adequar-se ao novo modelo econômico mundial, que cobrará gestões mais responsáveis e transparência. Aplicar a governança corporativa será, mais do que nunca, uma obrigação. O caixa das corporações deverá ser administrado de forma equilibrada, os riscos terão de ser profundamente equacionados e, sempre que possível, minimizados e os processos adequados constantemente para dar respostas às exigências do mercado.
Planejar e fazer com que os planos sejam aplicados é outro ponto que deverá receber atenção especial no novo modelo de mercado que emerge. Nesse sentido, focar os esforços da empresa na atividade-fim do empreendimento torna-se fator essencial diante da escasses de recursos e de crédito para cobrir custos e da necessidade de ampliar ao máximo a geração de caixa.
As soluções propostas no comunicado emitido após o encontro do G20 em Londres tornam as economias nacionais mais próximas umas das outras e estabelecem iniciativas que têm o objetivo de reconstruir a confiança dos mercados, agora em bases mais bem alicerçadas e reguladas. Vale lembrar, no entanto, que alguns dos preceitos do Consenso de Washington, como o que prega a disciplina fiscal para os Estados, continuam sendo referência válida.
O tempo nos dirá se a transformação de paradigmas será incorporada definitivamente pelo mercado global e se as relações econômicas adotarão o equilíbrio, a transparência e a responsabilidade como parâmetros a serem seguidos. O que é certo é que as empresas e seus gestores devem ter em mente que o caminho da administração responsável é o único capaz de dar garantias para que as corporações sejam bem-sucedidas em seu desenvolvimento.