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Quando a linha de montagem virou um laboratório multicultural

Lígia Ferreira


Os anos 90 tinham início e o Brasil dava seus primeiros passos rumo à abertura econômica e a liberalização comercial, tornando-se um mercado latente para grandes corporações como a francesa Renault. A montadora iniciava em 1996 a instalação de sua primeira fábrica em terras nacionais, em São José dos Pinhais (PR). Mas ali nascia não só uma grande linha de montagem com cerca de 4.500 colaboradores, como também um verdadeiro laboratório multicultural.

 

A multinacional francesa apostou na formação linguística e intercultural, baseada no ensino do idioma francês e português, como passaporte para o futuro. E até hoje, seu projeto em terras brasileiras é considerado um caso emblemático de qualificação de Recursos Humanos.

 

A fábrica nasceu sob a bandeira da diversidade. Homens e mulheres de horizontes profissionais e nacionalidades diversas encontraram-se em uma região sem tradição industrial, para alterar profundamente esta vocação e integrá-la ao Mercosul. Destes colaboradores, 800 eram brasileiros.

 

A criação de todos os segmentos de uma empresa automobilística em um país, como foi o caso, é um fenômeno raro. Se, até aquele momento, para os brasileiros os franceses eram representantes de grandes fabricantes de vinhos, de perfumes e de produtos de luxo, tiveram a chance de provar uma aventura cultural única.

 

Desde o início da implantação da fábrica, a formação lingüística e intercultural receberam uma ênfase especial, já que dela dependia a integração das equipes de trabalho. Quando efetivamente concluiu a montagem da planta, em dezembro de 1998, a Renault já contabilizava 104 mil horas de treinamento dispensado aos colaboradores das mais diversas áreas, especialmente as técnicas, pelo menos 40% superior à média do setor automotivo no Brasil.

 

O objetivo era qualificar mão-de-obra jovem e inexperiente, pois a grande maioria das pessoas recrutadas não possuía experiência anterior no setor. Não apenas os brasileiros aprendiam o francês, como os franceses e demais expatriados, o português. Aprendiam a elaborar documentos técnicos, redigir comunicados e, especialmente, interagir com colegas da matriz e de todas as demais filiais. Videoconferências e missões internacionais passaram a ser rotinas comuns.

 

Na Renault do Brasil, o aprendizado de duas línguas estrangeiras era a primeira porta de acesso às condições necessárias para se iniciar a inserção na empresa. Sem o conhecimento da língua francesa, muitos brasileiros estariam privados de uma ferramenta essencial. Do outro lado, as questões linguísticas e de compreensão intercultural foram pontos críticos que exigiram soluções variadas e originais, para propiciar uma integração efetiva das equipes multilíngues.

 

A integração ganhou vida com a inauguração de uma biblioteca-midiateca, disponível a todos os funcionários e resultado deste projeto global. A motivação e a disposição para aprendizagem de novas línguas surpreendeu os franceses, que geralmente se consideram “duros de orelha”. A reputação dos brasileiros, por sua vez, atravessou a fronteira. Hoje, mais de 1 milhão de profissionais atraem a atenção das empresas francesas internacionais graças à boa formação e à rápida adaptação a idiomas estrangeiros.

 

A montadora foi responsável por novidades como Scénic e Clio, muito bem avaliados no mercado brasileiro. Em 2001 formou uma das maiores alianças da indústria mundial, ao unir forças com a Nissan. Mas é no interior paranaense que florescia seu “lançamento” mais promissor – um capital humano que transformou as relações comerciais franco-brasileiras depois de anos de estagnação.

 

 




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